Interrompemos Esta Transmissão Para um Gole
Foi em 2019, antes da pandemia, um dos meus primeiros trabalhos como bartender. Na época eu tinha me candidatado para o programa de rádio da faculdade que eu queria cursar, então já começava a treinar a norma padrão brasileira para evitar o uso de dialetos durante os programas em direto (isso vai fazer sentido mais para a frente). Foi em um pequeno bar em uma das ruas mais movimentadas da cidade de Belo Horizonte que tive minha primeira e quase última experiência atrás de um balcão.
| Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial |
São 21h da noite, meu patrão me recebe para um expediente de 4h já desesperado com a quantidade de "Chopp" (Imperiais) que ele teria esquecido de levar a uma mesa. 2 minutos se passam e eu estou já com copos empilhados e com os sapatos deslizando no gelo do chão. Uma música alta se põe na minha cabeça, é quase impossível ouvir os clientes e muito menos eu que treinei minha voz mais cedo e já estava quase rouco. Conforme vou atendendo as pessoas, eu começo a me enrolar em minhas próprias palavras, mas graças a música ninguém percebe. (Um detalhe importante, o nome do bar será alterado na história, mas ainda irá manter a confusão que eu fazia ao longo da noite)
— “Boa noite, bem vindo ao bar do rato gordo o que o senhor deseja?"
— “Boa noite, bem vindo ao rato do bar do gordo o que o senhor deseja?”
— "Bem vindo, é noite no rato senhor gordo, o que deseja?”
Entre o sexto e sétimo grupo que atendo, um cliente chega, a principio uma pessoa comum, ele me pede uma dose de conhaque e uma cerveja, parece ansioso esperando pelos amigos. Mas foi quando todos chegaram que me apercebi, este cliente viria a ser o diretor de cultura e eventos da faculdade e era um dos responsáveis pela rádio que eu viria a participar.
Na "segunda rodada" perguntei a ele para ter minha confirmação e quando descobrimos a situação não paramos de falar um com o outro. Foi uma noite inteira de piadas de rádio com aquela mesa, até me fazia esquecer os clientes chatos e meus erros de iniciante.
— “Mais uma do locutor” — Era assim que ele me chamava quando precisava falar comigo.
Mas não adiantava ficar presunçoso, quanto mais eu falava com ele, mais minha voz ficava baixa e menos eu conseguia falar. até um ponto em que eu mesmo não suportava mais cuspir nenhuma palavra. Foi quando por volta das 23:30 que ele me perguntou: “Locutor, bebe esta comigo?”
Fiquei abismado, Olhei pro meu patrão e ele só acenou que sim, parecia que ele não se importava já que eu estava trabalhando bem. Pronto, eu estava suando e não conseguia pronunciar um não por causa da minha voz.
Bebi o copo, e quando fui ver ele já me convidava para beber os copos de bebidas licorosas com frequência. Meu patrão adorou a ideia e me ensinou a “fingir” beber o licor para descartar depois, era melhor assim para que eu não ficasse tonto.
No fim do expediente nos despedimos, nunca tinha bebido tanto até então, e pior que isso nunca tive lucrado tanto pro meu patrão só por fingir ser um apresentador de rádio para uma mesa. Terminei a noite com o apelido de Locutor e recebi minha ligação no dia seguinte para os testes da rádio. Por uma noite fui o melhor apresentador da cidade!
…… Só foi uma pena fazer o teste na manhã seguinte com a ressaca das minhas "transmissões de rádio” na mesa do Diretor.
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