Bebidas e o Vale da Estranheza

Uma clássica mesa de bar, 2 a 3 amigos ao seu redor e uma caneca com o melhor que a cevada pode oferecer depois de sair da torneira. Cada pequeno momento parece ser compartilhado mais rápido quanto mais o copo se esvazia, as manchas na mesa começam a se acumular e as vozes precisam ficar mais altas para serem ouvidas. Isso é uma quinta feira de quem trabalho 9 horas seguidas no bar da rua debaixo e passou pelas mesmas experiência que o turno da noite 30 minutos antes de chegar.

Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial


Eu sou “P” e conto isso por que essa figura decadente que sempre se encontrava no bar após o trabalho era eu. Trabalhei para uma rede de bares nos últimos 2 anos, fazendo alguns part-times e indo a eventos para ver as pessoas se divertirem e gastar meus sapatos novos que vieram com o primeiro pagamento. Minha principal função: Ouvir reclamações sobre cerveja de qualidade duvidosa, mas sem permitir que um cliente saia insatisfeito,  pois a empresa já tem reclamações demais. 

Em mais uma dessas noites em que eu e meus colegas de trabalho saímos para conviver após o trabalho, um assunto se derrama na mesa, como o copo de um de meus colegas caia no chão na noite passada: “esses idiotas somos nós”. A principio se parece um tema estranho, sem contexto, mas quanto mais bebíamos mais continuamos a ver a comparação que meu amigo fez entre nós: “Os Bêbados deste bar” e nossos clientes “Os bêbados dos nossos trabalhos”. Não era sobre atitudes, sempre tratamos bem o pessoal e inclusive éramos bem recebidos e trocamos presentes com os funcionários do lugar inúmeras vezes, pagávamos nossas contas adiantados e ainda recebíamos 1 ou 2 copos por ajudar o pessoal.

Mas como que “esses idiotas” poderiam ser o nosso grupo? Bom, meu amigo disse: 

— “Passamos nossas noites trabalhando como escravos reclamando sobre como as pessoas desta cidade pequena visitam os mesmos lugares sempre e não buscam novidades, as vezes até suas próprias piadas perdem a graça por que não existe nada de novo. Pensem só, com o mesmo dinheiro que gastamos tomando cerveja aqui no final do expediente, poderíamos beber em outra cidade no final de semana ou ir viajar!”

Isso pegou todos desprevenidos, não só por ele ter dito aquilo aos berros e com um sotaque horrível, mas por que apesar de ainda não estarmos bêbados, sentimos tudo girando no estômago. Não é sobre nos divertirmos, adoramos ficar juntos e reafirmamos isso várias vezes ao longo da noite, mas é sobre querer mais. Se decidirmos ir beber em outro lugar, será que todos vão? Será que estou insatisfeito da rotina confortável? acordar cedo, ir a faculdade, gastar 2-3 euros com cafés e voltar ao meu trabalho, para depois ir gastar mais um pouco com alguns copos com meus colegas, para finalmente chegar em casa e descansar.

Como pode ser ruim querer mais, mas como pode ser ruim menosprezar o conforto que temos? Na época tínhamos uma equipe que se dava bem (grande raridade para este ambiente) e que separava o estresse do trabalho daquele lugar e mesmo depois dos anos se passarem e nos separarmos continuamos amigos. Mas qual o motivo para nos questionarmos tanto em um momento em que estava tudo bem? Essas perguntas tem uma origem: “O Vale da Estranheza”. É quando algo parece estranho mas ainda representa algo real, é algo levemente assustador mas comum para nós, não era estranho o fato de estarmos felizes, era estranho o fato de não estarmos no outro bar, que em si iria nos dar a mesma experiência, onde talvez os “Bêbados” de lá teriam o mesmo pensamento que nós de vir para o nosso lado da mesa. Mas essa estranheza é o que faz a pergunta ser tão interessante, como eu iria querer ir para o lado do vizinho se eu sei que a grama dele é igual, senão pior que a minha?

Esse existencialismo e teorias cobriram nossa mesa junto de um último “shot” para acalmar nossos estômagos, mas mesmo com a despedida, sorrisos sinceros e risadas ingênuas… todos olhamos para uma mesa de outro bar enquanto seguíamos caminho, onde no "rooftop" de um bar, um grupo de amigos rindo se cala quando um deles grita “esses idiotas somos nós”.






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